Domingo, 1 de Março de 2009

Para memória futura (escrito em suaves prestações)

Porque por vezes o nosso organismo trai-nos de um modo inesperado, e antes que o Tempo tenha tempo de fazer das suas, gostava de deixar escrita a história do nascimento do meu filho (segundo a minha vivência e interpretação).

 

O dia antes de.

Era Domingo. Véspera do dia marcado para a indução do parto. Combinámos almoçar com os avós paternos e jantar com os maternos. Pelo meio, e porque se proporcionou, fomos tomar um café com a Gisela e o seu pequeno João. Mas algo estranho estava já a acontecer: o meu bébé, sempre tão activo, estava demasiado sossegado.

Aterrorizada por histórias menos felizes, procedi a todas as mezinhas para o estimular: posições que ele gosta, docinhos, festinhas (algumas mais agrestes) e nada.

Fiquei indecisa sobre o passo a tomar, afinal estava a poucas horas da indução e como assim muito raramente e muito levemente o sentia, sabia que ele ainda estava ali. O F. não esteve com meias medidas "vamos ao hospital e pronto". Questionei-me se deveria ligar ao médico, mas parecia-me idiota porque à distância não havia muito a fazer. Ok. O que havia a ser feito, teria de ser no hospital. Mandei-lhe apenas uma mensagem e lá saímos de casa dos meus pais. Uma rápida passagem por casa para ir buscar os exames da grávida,um telefonema do médico para perceber o que se estava a passar e 10 minutos depois estávamos a estacionar na urgêcia. Foi assim que começou.

 

Acto II

Começámos por um ctg que detecta movimentos fetais e ali também eu senti alguns, mas fraquinhos... fraquinhos... Contracções, nem vê-las, quanto mais senti-las.

Chegam dois médicos que olham para a máquina e me asseguram que está tudo bem. Passamos ao gabinete e o médico, no decurso de uma ecografia que corria bem, recebe uma chamada do meu médico e responde que está tudo ok, existem movimentos, a indução está para o dia seguinte, tudo parece bem encaminhado. Vai para casa e volta amanhã.

De repente, nem percebi bem quando, vejo-os aos dois (médico e médica) a falarem de coisas que não percebi, a repetirem medidas, ou contagens ou lá o que era, com uns sorrisos que não interpretei como positivos e quando perguntei se estava tudo bem disseram-me um "sim" meio apagado, que apenas estavam a confirmar umas coisas e o médico lá me explicou que não viam muito líquido nem movimentos respiratórios, perguntou-me se tinha notado perda (a resposta foi negativa) e pegou no telemóvel "vou ligar ao chefe para avisar". No entretanto a médica faz-me um toque e disse que estava extremamente favorável naquele momento portanto tudo indicava que no dia seguinte seria o Dia.

Não sei lá porquê, chamam uma enfermeira e pedem-lhe para tratar do internamento. Dizem-me então "olhe, vamos interná-la para repousar".

Fugiu-me o chão debaixo dos pés.

 

Quarto 513

Um número simpático este, para quem, como eu, está sempre atento a simbologias.

Tudo me pareceu estranho. Enfiada numa camisa de dormir do hospital, com uns chinelos descartáveis nos pés e num quarto despido de quaisquer objectos pessoais, senti-me nua.

Há uns tempos que o F carregava a mala no carro, não fosse o diabo tecê-las. E aparentemente, o dito resolveu meter-se connosco nesse dia.

Por estes dias, a única coisa que me apaziguava o espírito era um livro de sudoku, os blogues e umas séries de televisão. Não sei ao certo quantos puzzles resolvi naquele quarto, mas ainda foram alguns...

Consegui dormir hora e meia. Por volta das sete horas do dia 23 começa o carrossel: dois microlax, abocat no antebraço, promessa de um pequeno almoço se o médico autorizar.

Às oito quase em ponto (a hora que havíamos marcado), entra-me pelo quarto o Johny com o seu habitual sorriso, nesse instante ainda mais rasgado (ou assim me pareceu, talvez pelo meu estado emocional estar alterado).

Avaliou a situação e avisou-me de que teria de permanecer sem mobilidade nas duas horas seguintes, que aproveitasse então para ir ao wc. Não foi preciso.

Após um toque, iniciou-se o processo que consiste em introduzir um gel (prostaglandinas) que, ao que percebi,terá a mesma função da ocitocina, ou seja, actuar "sobre a fibra contráctil do útero provocando a contracção, sincronização e propagação das contracções uterinas".

A primeira hora decorreu calmamente mas na segunda começou o festival: precisava MESMO de ir à casa de banho. Eu tinha achado que os microlax não tinham funcionado em plenitude, mas tanto o F como a enfermeira L me garantiram que era mesmo assim. Só que por esta altura já tinha percebido que não. Pedi ao F que a chamasse para ver se já dava para ir porque ela queria ver o evoluir da situação. Pediu autorização e fez um toque, em 15 minutos (quando fazia as duas horas) poderia ir, só tinha de colocar o soro numa "antena" portátil.

Decorreram os 15 minutos e chamo a auxiliar para que me facultasse a "antena" ao que se seguiu uma das discussões mais surreais que ali tive:

-Não pode ir à casa de banho, mãe! Está ligada ao ctg!

-Pois, mas a enfermeira L autorizou que fosse a esta hora.

-Sim... mas não pode levar o ctg atrás para a casa de banho! Só se trouxermos uma arrastadeira...

-Não quero arrastadeira nenhuma, quero ir à casa de banho e pronto! O ctg não tem fios precisamente para poder ter mobilidade!

-Mas tem aí os elásticos, não vê? Não pode ir à casa de banho com o ctg!

-OK! Chame a enfermeira se faz favor!

(sai e volta meio minuto depois)

-Vai ter de esperar que a enfermeira está ocupada. Só se quiser a arrastadeira...

(Segue-se nova discussão sobre a portabilidade do ctg ao que eu disse que esperava pela enfermeira).

O F. às tantas passa-se e vai mesmo prcurar a enfermeira, que vem ao quarto e me diz que posso ir à vontade e deve ter ido mexer uns cordelinhos porque depois de dizer "isto é muita burrice!!!" a tal "antena" lá apareceu...

Foi o alívio!

 

Abençoada Epidural

O Dr C, anestesista, foi ao quarto apresentar-se, fazer-me algumas perguntas e dizer que quando eu quisesse, poderia solicitar a analgesia. Disse-me que talvez fosse boa ideia introduzir o cateter em breve para facilitar o processo, pois quando as dores fossem maiores (nesta altura ainda quase não as sentia) tudo se complicaria e seria pior para mim e para ele. Concordei e ele mandou preparar o material.

Entretanto chega a enfermeira G. com um kit que nem percebi bem o que era tal a surdina da sua voz. Era para fazer a remoção dos pêlos púbicos ao que lhe disse que perguntara ao médico e este me aconselhou a não tirar nada. E ela não insistiu (foi esta a primeira prova dada do enorme respeito que aquelas pessoas manifestaram pelo meu corpo).

O Dr C volta com a enfermeira L e coloca-me em posição: sentada, sossegadinha, prontinha.

Demorou mas não custou na-di-nha e ali fiquei, ainda sem analgesia, mas com tudo prontinho para quando fosse preciso.

Só que surgiu um problema: com o cateter fiquei imobilizada, logo decidiram colocar-me uma algália. E aqui começou a minha tortura: de tudo o que se passou no dia 23, fisicamente, foi o momento que mais me custou. A enfermeira dizia que era apenas uma algália, que não era possível que estivesse a doer... mas estava! A borracha a passar à força, o ardor, a sensação horrível de ter ali um objecto estranho. Bom, descontrolei-me completamente e foi o descalabro: o meu parco pequeno-almoço multiplicou-se para dimensões exageradas e veio todo para fora sem dar tempo de nada. Foi a segunda vez que vomitei na gravidez.

Por esta altura entrei em transe e o meu cérebro desligou parcialmente. De tal modo que deixei de dar atenção ao que se passava em redor. O Johny entra e faz uma piada sobre a algália e como devo ter feito uma cara estranha, justificou-se, como se fosse necessário. Não. Eu é que não estava ali.

Começaram as dores e o F chamou o Dr. C para trazer a abençoada dose que me aliviou quase de imediato. Aqui é necessária alguma dose de cooperação e interpretação de sinais para perceber se está a funcionar: as contracções tornam-se mais frequentes mas mais rápidas e o médico disse que o melhor a fazer é não inspirar muito profundamente porque o excesso de oxigénio ainda nos deixa mais zonzas.

A partir daqui recordo-me de pouco: umas visitas do Johny para ver a evolução, uma segunda dose de analgésico,uma comichão incontrolável  que me fez estraçalhar um sinalito de carne aqui debaixo da mama, algumas contracções, uma ou outra dor aguda na zona dos rins (tenho uma vaga ideia de alguém me dizer que a epidural não é muito eficaz nas dores dos rins) e pronto. Foi assim que chegou a terceira dose da epidural e com ela a quase hora H.

 

sinto-me: a recordar
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gotinhas:
De mariavicente a 2 de Março de 2009 às 09:09
muito bem...tal como eu o pior foi mesmo a algalia, odiei, os pelos por cá também ficaram.
o relato está optimo vou er tudinho.
ate ja
De mil sorrisos a 2 de Março de 2009 às 13:49
Lendo...
:o)))
De A a 20 de Maio de 2012 às 22:07
Mas voces acham que sao as 1ªs mulheres do mundo a parir???
Mais uma c*%# de ouro!

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