Segunda-feira, 2 de Março de 2009

O parto (continuação)

Quase, quase

Esta era a frase que mais ouvia: está quase, quase!

Da mãe, da sogra (entretanto instaladas no quarto), das auxiliares que entravam a toda a hora... até que a enfermeira G pôs termo à minha tortura mental e pediu que saíssem um pouco. Recordo-me de a ouvir dizer algo como "era o que faltava, estar aqui assim e ter de ouvir as pessoas a rirem, todas felizes, mas quem está a sofrer é você!"

É bem verdade... não é que sejam sádicas, pelo contrário, e a felicidade delas é perfeitamente compreensível, mas esse "está quase" é uma pressão que não precisamos de sentir.

Algures aqui, uma das visitas do Johny trouxe uma novidade: uma maquineta para dispensar ocitocina juntamente com o soro. Uns sorrisos malandros entre ele e a enfermeira deram-me a sensação de "maldade" em curso e ali fiquei a receber a substância que ajudaria a desencadear o processo.

Minutos depois, vejo então o médico entrar seguido da enfermeira chefe e com uns apetrechozinhos que me levaram a perguntar de imediato "isso vai doer?"

E foi assim que perdi as águas.

 

Decorreu algum tempo e pedi mais uma dose de anestesia. Lembro-me de sentir uma dormência nos membros inferiores, que facilmente confundi com frio. O contacto de um pé frio que firmei na perna quente do médico aqueceu-me a alma que se esforçava por for fornecer calor ao resto do corpo. Pedi então ao F que verificasse como estava a minha temperatura e fiquei surpreendida quando me disse que pés e pernas estavam bem quentinhos.

 

Não sei dizer quanto tempo durou, sei que percebi que haviam instruções para me levarem para a sala de partos e aí fui, dois em um pela última vez naqueles corredores.

 

A Sala

O ambiente era jeitosinho. Sem janelas, algumas luzes, ligaram o rádio e estacionaram a minha cama ao lado da cama onde ía parir. Ajudaram-me a mudar de uma para a outra e esperei que o médico chegasse, obedecendo às ordens de fazer força em cada contracção e descansando nos intervalos. Ele foi ver uma rapariga nas urgências e eu aqui estava extremamente calma.

No meio de uma contracção, nova indisposição incontrolável onde deitei fora o que não havia para deitar. Apenas um líquido amarelo que uma vez expulso, me aliviou de imediato. Pelo sim, pelo não, mantive o saquinho perto da boca, não fosse nova urgência anunciar-se.

 

Abençoadas mãos

Abençoadas as mãos que com uma seringa me deram umas gotas de água.

Abençoadas  as mãos que com uma compressa me limparam o suor.

Obrigada enfermeira G. Mil beijos nessas abençoadas mãos.

 

Abençoadas as mãos que sabiamente trabalharam para ajudar o meu corpo a cumprir a sua função.

Abençoadas as mãos que em sincronia com a voz me deram força e instruções.

Abençoadas as mãos que manusearam instrumentos necessários, que desembaraçaram duas circulares do cordão umbilical, que possiilitaram um parto "normal".

Abençoadas as mãos que ampararam e receberam o meu filho neste mundo.

Obrigada Dr. J. M. Um abraço tamanho do mundo.

 

Entre as duas últimas contracções e o nascimento do meu bébé, ouvi no rádio (por esta ordem) a "Boa Sorte" de Vanessa da Mata e "Fico assim sem você" de Adriana Calcanhotto. Embora não goste de música brasileira devo reconhecer que senti que curiosamente as músicas eram muito adequadas ao momento: obrigada ao posto de rádio, fosse ele qual fosse (tivémos de o mudar a meio do acontecimento porque estava a dar "o trânsito").

 

Recordo-me de sentir a barriga esvaziar. Não me recordo de sentir propriamente o bébé sair. Mas o que recordo com maior doçura foi o momento em que o colocaram em cima de mim: o calor que ele emanava e aqueles pézinhos minusculos ali tão perto da minha cara. Toquei-lhes ao de leve e só consegui dizer "o meu bébé". Eram 18:35h.

 

Levaram-no para o tratar e para aqueles testes do índice de apgar, sob promessa de o trazerem de seguida. Vi de longe sem grande noção do que se estava a passar. Limparam-no, aspiraram, a neonatologista F (uma querida) lá testou o que havia a testar e o palco principal deixou de ser a minha cama.

O médico e eu permanecemos espectadores enquanto a equipa trabalhava em redor do meu bébé como uma colónia de abelhas sincronizadas. E nós, aguardávamos a expulsão da placenta.

Trouxeram-me o Eduardo para confirmar a pulseirinha, o elo formal de ligação entre nós os dois. Dizia "R.N. de Susana blá, blá, blá". Mal lhe toquei e tiveram de o levar para o recobro, para a protecção de uma incubadora. Fiquei assustada e tranquilizaram-me sob a justificação de que necessitava de aquecer um bocadinho pois tinha a temperatura nos 34,5º.

 

Começou então a outra parte fisica dolorosa: espremeram-me a barriga o que doeu imenso e hoje, quase uma semana decorrida, ainda sinto dor nos locais calcados pelas enfermeiras. Mas saíu tudo e o médico mostrou-me e explicou como é que a placenta abrigou o meu menino.

Não achei bonita mas o cordão, esse sim, realmente espiralado e muito, muito bonito.

 

Perguntei se o F já tinha visto o filho, disseram-me que sim, aliás... estavam juntos na sala de recobro.

 

Durante a sutura, a sensação de solidão foi imensa. Estava sozinha, sem o meu bébé, sem o meu marido, numa sala que de animada na emergência dos acontecimentos passou a palco solitário de duas pessoas, uma agulha e uma linha. E depois disso limitou-se a mim. Só.

 

Veio então a minha cama, feita de lavado e lá fizémos o transfer. Foi triste sair da sala sem o meu bébé mas enfim, estacionaram-me perto da incubadora dele, onde só o via de costas e não o ouvia chorar: só gemia.

 

Esta foi a maior dor de alma até hoje e eu, que sou uma Madalena, não tive uma lágrima para verter.

sinto-me: a recordar
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gotinhas:
De mariavicente a 2 de Março de 2009 às 09:13
e foi um momento lindo e mais uma vez bem relatado, parece que estava lá a ver.
também vomitei e muito.
ao consigo imaginar a tua dor de não poder estar sem ele, mas agora teras todo o tempo do mundo.
essa das visitas no quarto nessa fase, meu Deus, para mim seria o pior de tudo.
De susel a 2 de Março de 2009 às 11:50
pois....mas eu tenho muitas lágrimas e estão a correr neste momento...........
De mil sorrisos a 2 de Março de 2009 às 13:51
Cada nasciemnto é uma história diferente, mas as emoções são sempre mais que muitas. O melhor começa agora...
Beijos e Mil Sorrisos
:o))))))))
De Drikas a 2 de Março de 2009 às 16:23
Tas a ver! Nem foi assim tão dificil, pois não??? E tenho a certeza, que vais recuperar rápido com esse bebé lindo para cuidar Bjokinhas grandes
De Mamã Gansa a 4 de Março de 2009 às 00:09
Muito bonito o nteu relato.Comovi-me imenso

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