Sábado, 7 de Março de 2009

Da depressão

Julgo que é normal termos ideias pré-concebidas acerca do parto e da maternidade. Por estas bandas, tentei sempre não criar demasiadas expectativas, até porque o medo era muito. Não neguei nenhum tipo de procedimento, à partida, e ainda bem porque o Eduardo acabou por ter de ser ajudado pela ventosa e eu acabei por ter de ser submetida à episio. Nâo fiquei chocada nem foi isso que destruíu a minha alegria.

 

O que nos destrói a alegria é o facto de romantizarmos demasiado o momento. É o facto de acharmos que a partir daquele instante somos mães, quando na verdade já o somos desde o dia que pensámos na possibilidade de engravidar e em que tudo fizémos para que acontecesse. O processo de "ser mãe" começa antes da concepção, antes de se materializar no nosso ventre, antes dos gâmetas bem sucedidos.

 

Ando de rastos. Arrasto-me nos dias, aguardando por outros melhores e não imaginam o quão bem me faz escrever aqui, saber que sou lida, sobretudo agora que me apercebi que tenho muito mais visitas do que imaginei. Após o parto recebi muitos comentários de pessoas que não conheço e me dizem que há muito que seguemeste "diário", simplesmente nunca tinham deixado comentários. Acreditem que esses comentários são uma pomada milagrosa para estas feridas abertas.

 

Por isso mesmo, um OBRIGADA a todos quanto nos visitam aqui, com ou sem comentários, com maior ou menor assiduidade.

 

Muita gente me perguntou sempre o que sentia na depressão. Nesta, a pós-parto, o sentimento não diverge, simplesmente a experiência ganha com os anos de convivência com esta doença permitem-me agarrar desde logo nas armas para a combater. Até porque neste momento existe uma condicionante que me espicaça a continuar, cada dia, para que não me afunde naquele poço profundo de onde já fui resgatada à beira da fatalidade: o meu filho MERECE uma mãe presente, saudável, que lhe proporcione o bem-estar que um ser pequenino requere ao chegar a este mundo.

 

O que sinto é uma enorme angústia, uma insegurança natural, uma ansiedade sem explicação visto que tudo está bem com o Eduardo. Estamos a fazer tudo bem e mesmo assim sinto-me uma incompetente, com a auto-estima no chão que pisamos. Sinto-me desamparada. E estou? Não! Tenho um marido presente e cooperante, uma mãe fantástica que não dá palpites, limita-se a cuidar do nosso bem estar tratando-nos da comida, da roupa, da organização da casa que de repente se tornou caótica. Tenho uma sogra maravilhosa que sem queixumes nem cobranças faz tudo o que pedimos, aparece quando é necessária, dá-nos espaço quando necessitamos dele. Tenho um pai e um sogro babados que tentam não mostrar a sua preocupação perante este estado e amparam-me o filho para que possa descansar uns escassos minutos. Tenho tudo. E sinto-me sem nada.

 

As consequências são rios de lágrimas que deixam os presentes tristes e desesperados. É uma falta de apetite que me faz ver magra como há muito não via (ok, também perdi aquele barrigão, é certo). É um quase não dar pelo cansaço acumulado que, no entanto, se reflecte no humor e no corpo: sinto-me febril constantemente sem ter qualquer ponta de febre.

 

A hipersensibilidade do momento faz-me perder a vontade de ver pessoas, de sair de casa, de atender telefonemas, de fazer as coisas que gosto. Aos poucos tento contrariar esta tendência e ontem, a voltar da consulta, dei por mim a apreciar o momento de empurrar o carrinho do Eduardo pela noite já escura, Avenida da Liberdade acima.

Agora aguardo ansiosamente que a rotina, tão necessária numa depressão (quem diz mal da rotina não lhe sabe dar mesmo o valor), se instale de armas e bagagens para poder passear, apanhar sol, cheirar a Primavera e gozar melhor estes momentos que sei únicos e que a doença me faz desejar que desapareçam.

 

Da consulta...

Realmente sou uma sortuda com os meus médicos. A Inês encaixou-me ali no meio de consultas para que não esperasse muito com o bébé. Assim que cheguei, entrei na vaga seguinte. É injusto para quem está à espera e detesto estas coisas, mas não me demorei e agradeço muito o gesto. É muito difícil sair com o bébé sem ter ainda uma bagagem para lidar com os horários inconstantes dele.

Ajustámos a medicação, mantendo afastadas as benzodiazepinas, para que possa continuar a insistir na mama, mesmo que o resultado seja tão inglório. Em 15 dias deverá fazer algum efeito e se não for suficiente, fazemos nova dosagem. Não queremos nada muito abrupto mas o que tiver de ser, será.

Também vim feliz por termos a clara noção de que esta depressão não é tão forte como a de algumas mulheres que ficam completamente incapacitadas para cuidarem dos filhos. Não. Aqui o passado assume as funções de "manual de sobrevivência" e a rápida actuação, bem como os mecanismos de defesa que entretanto fui criando, ajudam a amenizar o problema.

 

Resta-nos aguardar e ter esperança de que melhores dias virão.

sinto-me: deprimida
gotinhas:
De Carolaine a 7 de Março de 2009 às 13:18
Força :)


E um beijinho apressado para os 3 *
De mil sorrisos a 7 de Março de 2009 às 13:35
Ao ler este post pensei que este foi um dos relatos mais lúcidos e conscientes relativamente ao que deve ser a depressão pós-parto. Minha querida, se te faz bem partilhar tudo com a tela, acredita que ler-te é um prazer e, mais do que isso, uma aprendizagem. Obrigada e as melhoras!
Beijos e Mil Sorrisos
:o))))
De LUna a 7 de Março de 2009 às 15:51
Tal como tu tb não livrei de uma depressão pos parto há 2 anos atrás, alias revejo tal e qual como tu escreves-te.
os conselhos que te dou pensa mto em coisas positivas, são elas nos dão força para saimos do buraco depressão.saí de casa arejas as ideias e o espirito, respira ar puro faz tão bem faz sentir melhor. descansa mais puderes, manda limpeza da casa ás urtigas, vai ao cabeleireiro tenta aranjar um tempinho só para ti.
Tu tens uma coisa a teu favor consegues chorar eu não conseguia mais tenta-se não conseguia, parecia barril de pólvora pronto a explodir. aos poucos foi-me libertando da medicação e fui-me sentido melhor mais confiante, menos stressada e assim me libertei do mostro papão depressão.
Quanto amamentação eu tive mtos problemas e stressei mto com assunto, hoje faria tudo diferente se der dá senão paciencia para servem leites artificiais? so tive leite 1 mes o M. hoje com 2 anos e meio é uma criança feliz e saudável
o importante tb é a tua saúde não te esqueças.
o bébe requem mtos cuidados e quem vai 1ª viagem e os 1 meses são complicados, mas tb é importante não esqueças manter o teu elo em cima, tempinho para te mimares para as tuas coisas ajuda mto.
as melhoras pensamento positivo já viste como é maravilhoso ser mãe?
bjos
L&A e M

De LUna a 7 de Março de 2009 às 15:55
Ps: só me esqueci uma coisa escreve, fala, desabafa, o importante libertes toda a magoa puxa isto tudo cá para fora, chora nem seja como uma Maria madalena isso faz muito bem é o escape ao barril de povora depois sentimos tão leves. desculpa o testamento!
De Tita a 7 de Março de 2009 às 17:34
Simplesmente Força, nada mais tenho a dizer.
Mtos beijos
De Pó d'Água a 7 de Março de 2009 às 19:24
Escreve linda, que nós vamos lendo os teus desabafos... E todas ficaremos, com certeza, a torcer por ti e a desejar que os melhores dias surjam bem depressa.
Abraço apertadinho **
De C. a 7 de Março de 2009 às 19:40
Força ;), Vontade ;), e muito Amor...vais ver que ficas 100%. Bom fim de semana .
C.
De Cila a 8 de Março de 2009 às 15:23
Susana eu sei que tens a força e a coragem necessárias para superar mais esta etapa da tua vida, tu vais conseguir.
Há dias bons e outros menos bons mas todos eles nos ensinam coisas e nos fazem ficar mais fortes.
Tu és uma mulher forte e vais conseguir.
Quando quiseres e se precisares sabes como me encontrar.
Podes não acreditar mas eu penso muito em ti.

Um beijo muito grande para toda a tua familia.

De Ana a 9 de Março de 2009 às 20:52
Olá!

Cá estou eu outra vez. Ainda bem que não te importas que eu deixe aqui umas gotinhas de vez em quando ;) Nunca tive depressão pós-parto, felizmente. Mas ainda bem que tens uma família próxima que te compreeende e dá apoio e espaço quando precisas. Só mais um conselho: mima-te!Aproveita essas ajudas e vai beber um café, compra uma roupita nova(até estás elegante!), assim descontrais e ao estares descontraída aproveitas melhor todos os momentos do Dudu :)

Bjocas

Ana

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