Domingo, 24 de Maio de 2009

Há 3 meses foi assim

 

Eles tiravam fotos, riam, interrogavam-se sobre as parecenças do bébé que acabara de nascer. O F preparava-se para ir ver o filho e esperava trazê-lo para mostrar aos avós. Mas não. Foram os avós ao encontro do neto, pequenino, no seu leito de cristal, sem a mamã, sem a maminha da mamã, sem o calor da mamã. Nenhum bébé deveria ser privado da sua mãe nos primeiros instantes de vida. Nenhuma mãe deveria ser privada do seu bébé logo depois de o parir. Mas foi assim há 3 meses...

sinto-me:
Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Paragens da ervilha

Ontem, em Fátima, caminhava com o F e conversávamos sobre o parto, revivendo pequenos episódios e rindo de alguns (bem que nos dizem "ainda te vais rir disto").

 

Ora a dada altura, falávamos duma expressão do médico: contava-lhe eu que quando me algaliaram fiquei furiosa e que o médico, ao entrar no quarto, vê o "saquinho" e diz "pronto, mais uma coisa para ir para o "bloco".

 

Perante a minha cara de parva, apressou-se a desculpar-se com um "estou a brincar, hã?".

 

Mas ao contar isto ao F, ele percebeu "pronto, mais uma coisa para ir para o blogue".

 

DUH!!!! E foi mesmo... E assim a frase já faz sentido...

 

Aqui a minha pessoa pensou que o médico não devia estar bom da cabeça mas afinal a ervilha que parou foi mesmo a minha... (deve ter sido a anestesia que chegou ao cérebro também!)

sinto-me: uma perfeita idiota
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Segunda-feira, 9 de Março de 2009

2 semanas de gente

Faz hoje duas semanas que o meu besnico veio ao mundo, assim:

 

Com a mãozinha esquerda ali, naquele sítio. Ainda hoje coloca assim a mão. Digam lá que não é um charme...

 

Às duas semanas, o bébé:

-já deixa mudar a fralda sem chorar desalmadamente;

-já quase não chora no banho (adoptámos uma técnica nova quando percebemos que ele se sente inseguro: lavamos-lhe primeiro a cabeça e só depois o despimos e colocamos na banheira, sempre de barriga para baixo);

-já engordou (e nota-se nos bodys e num babygrow que deixaram de servir);

-apesar de saber que é impossível, ía jurar que já lhe vi alguns sorrisos intencionais;

-segue objectos e sons com os olhos;

-continua a fazer cócós muito líquidos;

-adora lavar o rabinho à torneira;

 

Duas semanas depois de parir, a mãe:

-já quase não tem hemorragia;

-tem a costura praticamente cicatrizada (ainda está ali uma zona mais sensível);

-continua com pouco leite mas resignou-se (e continua a dar o que tem);

-coneguiu vestir um dos pares de calças que tinha antes de engravidar;

-sente falta de uns miminhos (precisava de ir à esteticista tratar dos pêlos, de comprar umas roupas, de gostar mais do que vê ao espelho);

-começa hoje a pílula (será que pára a hemorragia?)

 

Foi há duas semanas. Contudo, parece-me simultaneamente que foi ontem e que foi há anos... E só agora começo a arrebitar do estado alienado em que me encontro desde o meio-dia daquela segunda-feira.

 

(saudades...)

 

sinto-me: outra
Domingo, 8 de Março de 2009

Faz hoje 2 semanas...

...e por esta hora estava eu assim:

 

Cheia de medos, com o livro do sudoku ao lado, alternando os puzzles com os canais de televisão que transmitiam a noite dos Oscars, para afastar a ansiedade que me estava a consumir...

 

Dormi uma hora, entre as 5 e as 6 da madrugada.

 

Quando acordei às 6, para fazer o microlax e tomar banho, nem acreditei que tinha, enfim, chegado o dia D.

 

sinto-me: a recordar
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

O dia seguinte (ao parto)

Acordámos cedo com o pequeno-almoço a entrar no quarto. Enquanto comecei a comer, o F foi tomar um duche, interrompido pela presença da Generala Mor que nos veio avisar que íam dar banho ao bébé.

Insistiu para que eu bebesse o leite e mandei um berro ao F que se despachasse e fosse lá ter. Agarrei na máquina e lá fomos até ao berçário, ao lado da sala onde havia passado a noite, onde encontrámos o meu petiz só de fraldinha e a receber os primeiros cuidados de higiene.

 

O enfermeiro J. foi explicando o que estava a fazer (aquela lenga-lenga do soro na compressa, uma para cada olho, limpar de fora para dentro, soro no nariz, limpar as orelhinhas e blá, blá, blá). Despiu-o e colocou-o dentro de água. A-do-rou o banho!! (nota: hoje, ao 11º dia, e depois desse banho no hospital, foi a primeira vez que não chorou para o lavarmos).

Lá se banhou, se vestiu e deixaram-me, enfim, experimentar dar mama.

 

Num cadeirão, sentada como podia, na sala da UCIN, coloquei o meu filho ao peito, sobre a supervisão do enfermeiro J. que me deu umas orientações e o rapaz lá se desenrascou. Mamou de uma mama, de outra (colostro, claro) e não satisfeito, tentaram dar-lhe um pouco de suplemento à seringa, mas mandou-nos a nós bebê-lo. Arrulhou um pouco e deixou-se ficar, no quentinho da sua caixinha de vidro. Fiquei enternecida a olhar para ele...

1ª vez que mamou

 

Voltámos então para o quarto e reclinei-me mais um pouco enquanto terminava o pequeno almoço deixado a meio.

Toca o telefone do quarto. Achámos estranho e o F atendeu meio a medo (aquilo é como no hotel, tipo... quem é que nos ía ligar para ali??): era o Johny, um querido, com uma voz ensonada, para saber como estavam as coisas e se era necessário ir ao hospital (era feriado de Carnaval). Dei-lhe conta das novidades e como estava tudo ok, ficámos de ver-nos no dia seguinte.

 

Não me recordo bem da sequência seguinte, sei que veio o almoço, que ficou até tarde no tabuleiro pois o meu filho reclamou a minha presença, depois começaram a chegar visitas e às tantas fiquei com os nervos em franja. As pessoas eram tantas que às duas por três a enfermeira da neonatologia proibiu as visitas ao bébé (Abençoada!). E foi um alívio quando me mandaram chamar para dar mama de novo, pois pude retirar-me da confusão do quarto para a calma do berçário.

 

Alonguei-me propositadamente na UCIN para ver se as pessoas íam embora, pois tinha combinado com o médico que o Eduardo iria para o quarto quando as visitas dispersassem: não me apetecia nada ter o bébé de colo em colo, cheio de beijos e bafos de adulto depois de tudo o que se passou. Não. Quando ele fosse para o quarto era nosso e só nosso.

 

De passagem pelo corredor levo um raspanete das enfermeiras e de um médico que me irritou bastante: que controlasse as minhas visitas porque estavam a fazer muito barulho e estavam a chegar pessoas para serem operadas, já para não falar que uma mãe dele tinha acabado de fazer uma cesariana e precisava de descansar. Ora... não é papel das enfermeiras controlarem as visitas? Por favor... eu nem estava no quarto e decerto compreendem que é mais fácil para quem não conhece as pessoas pôr ordem no assunto, que para mim, estar a passar por megera pedindo que vão embora.

O curioso é que cheguei ao quarto e não havia um piu! Afinal o barulho foi no quarto da senhora da cesariana, onde até champagne houve. E quando o F veio com o berço do meu menino, parece que deram corda àquela gente: "Vem aí o menino! Vem aí o menino!"

 

Calma... vinha um menino, mas era o nosso! Patético... e ao mesmo tempo, como os compreendo!

 

E ficámos, os 7 (avós, pais e filho) até nos despedirmos e começarmos a saga das noites mal dormidas...

 

sinto-me: a recordar
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Depois de parir

O neonatologista P.S. foi falar connosco à sala do recobro. Pelo canto do olho via o Johny a escrevinhar no computador, via as enfermeiras a serenarem depois da azáfama do parto, via o meu bébé a gemer e nem me lembro do que o Dr. disse. Lembro-me que julgavam estar tudo bem. Foi então que chorei algumas lágrimas, que uma enfermeira doce limpou e que o levaram para a neonatologia. E mais uma vez fiquei ali...

 

Julgo que foi por esta altura que os avós o viram. Não é o que sonhamos. Pensei sempre que o F o levaria em braços para o apresentar aos nossos pais, mas em vez disso, passou dentro duma cixa de vidro, cheio de fios e sem os mimos do contacto humano.

 

Levaram-me para o quarto e recordo-me de passar por uma rapariga na urgência, de bata vestida, agarrada ao telemóvel e com um ar infeliz. Ainda me senti mais infeliz.

Não tive no corpo o frio que dizem que se sente depois de parir, mas tive-o na alma.

 

Já no meu quarto, tinha a sensação de ser noite profunda. Mas não era... era cedo ainda, oito e meia ou por aí. O F andava entre o quarto e a neonatologia, ate que assentou estandarte ali ao pé de mim: o nosso filho estava bem.

Não me lembro bem, mas o médico apareceu e deu-me autorização para comer e quando tivessem decorrido seis horas do parto, poderia levantar-me com ajuda da enfermeira.

Despedi-me dele e aguardei.

 

Sei que comi, não sei foi o quê. Sei que o tempo passou rápido, talvez tenha adormecido. Sei que chegou a meia noite e meia e eu só queria levantar-me e ver o meu bébé, pois apesar de estarmos separados apenas por escassos metros, a distância parecia-me ser de quilómetros.

Tiraram-me o catéter da anestesia, assim, arrancado à força. Fiquei danada e fartei-me de refilar (se o tivessem molhado com alcool, a cola não me arrancava o pêlo). Acho que a enfermeira não gostou do berro que mandei, mas isso era o que menos me importava porque não havia necessidade de fazer as coisas assim. Mas vá lá, não me demorou no processo de levantar, correu tudo bem e pude, enfim, ir tomar um banho.

 

Só via sangue a escorrer pelo ralo do duche e o banho teve tanto de reconfortante como de doloroso.

Vesti-me de lavado, já sem as roupas do hospital e fui com o F, finalmente, conhecer melhor o meu bébé: era lindo e perfeitinho.

Estava inconsolável, metia dó. A enfermeira C. da neonatologia pediu-me autorização para colocar uma chucha, coisa para a qual não estava muito pelos ajustes, mas tive tanta pena do bébé que achei que merecia aquele pequeno consolo, o único que lhe podia dar no momento.

Informaram-me que tinham acabado de o alimentar através de uma sonda e aguardavam a reacção. Se fosse positiva, no dia seguinte poderia inciar a mama. E ninguém me tira da cabeça que foi aqui que começaram os problemas com o meu leite materno.

Pudémos tocar-lhe, mas confesso que nem sabia bem como fazê-lo. Porque o que me apetecia era pegar-lhe, cheirá-lo, beijá-lo, agarrá-lo contra mim e não fazer umas festinhas como se fosse um gatinho envolto em mantas num cesto a quem fazemos uma festa na cabecita.

 

Apesar da minha tristeza, tive uma noite boa, a única em que dormi bem depois do nascimento dele.

sinto-me: a recordar
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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

O parto (continuação)

Quase, quase

Esta era a frase que mais ouvia: está quase, quase!

Da mãe, da sogra (entretanto instaladas no quarto), das auxiliares que entravam a toda a hora... até que a enfermeira G pôs termo à minha tortura mental e pediu que saíssem um pouco. Recordo-me de a ouvir dizer algo como "era o que faltava, estar aqui assim e ter de ouvir as pessoas a rirem, todas felizes, mas quem está a sofrer é você!"

É bem verdade... não é que sejam sádicas, pelo contrário, e a felicidade delas é perfeitamente compreensível, mas esse "está quase" é uma pressão que não precisamos de sentir.

Algures aqui, uma das visitas do Johny trouxe uma novidade: uma maquineta para dispensar ocitocina juntamente com o soro. Uns sorrisos malandros entre ele e a enfermeira deram-me a sensação de "maldade" em curso e ali fiquei a receber a substância que ajudaria a desencadear o processo.

Minutos depois, vejo então o médico entrar seguido da enfermeira chefe e com uns apetrechozinhos que me levaram a perguntar de imediato "isso vai doer?"

E foi assim que perdi as águas.

 

Decorreu algum tempo e pedi mais uma dose de anestesia. Lembro-me de sentir uma dormência nos membros inferiores, que facilmente confundi com frio. O contacto de um pé frio que firmei na perna quente do médico aqueceu-me a alma que se esforçava por for fornecer calor ao resto do corpo. Pedi então ao F que verificasse como estava a minha temperatura e fiquei surpreendida quando me disse que pés e pernas estavam bem quentinhos.

 

Não sei dizer quanto tempo durou, sei que percebi que haviam instruções para me levarem para a sala de partos e aí fui, dois em um pela última vez naqueles corredores.

 

A Sala

O ambiente era jeitosinho. Sem janelas, algumas luzes, ligaram o rádio e estacionaram a minha cama ao lado da cama onde ía parir. Ajudaram-me a mudar de uma para a outra e esperei que o médico chegasse, obedecendo às ordens de fazer força em cada contracção e descansando nos intervalos. Ele foi ver uma rapariga nas urgências e eu aqui estava extremamente calma.

No meio de uma contracção, nova indisposição incontrolável onde deitei fora o que não havia para deitar. Apenas um líquido amarelo que uma vez expulso, me aliviou de imediato. Pelo sim, pelo não, mantive o saquinho perto da boca, não fosse nova urgência anunciar-se.

 

Abençoadas mãos

Abençoadas as mãos que com uma seringa me deram umas gotas de água.

Abençoadas  as mãos que com uma compressa me limparam o suor.

Obrigada enfermeira G. Mil beijos nessas abençoadas mãos.

 

Abençoadas as mãos que sabiamente trabalharam para ajudar o meu corpo a cumprir a sua função.

Abençoadas as mãos que em sincronia com a voz me deram força e instruções.

Abençoadas as mãos que manusearam instrumentos necessários, que desembaraçaram duas circulares do cordão umbilical, que possiilitaram um parto "normal".

Abençoadas as mãos que ampararam e receberam o meu filho neste mundo.

Obrigada Dr. J. M. Um abraço tamanho do mundo.

 

Entre as duas últimas contracções e o nascimento do meu bébé, ouvi no rádio (por esta ordem) a "Boa Sorte" de Vanessa da Mata e "Fico assim sem você" de Adriana Calcanhotto. Embora não goste de música brasileira devo reconhecer que senti que curiosamente as músicas eram muito adequadas ao momento: obrigada ao posto de rádio, fosse ele qual fosse (tivémos de o mudar a meio do acontecimento porque estava a dar "o trânsito").

 

Recordo-me de sentir a barriga esvaziar. Não me recordo de sentir propriamente o bébé sair. Mas o que recordo com maior doçura foi o momento em que o colocaram em cima de mim: o calor que ele emanava e aqueles pézinhos minusculos ali tão perto da minha cara. Toquei-lhes ao de leve e só consegui dizer "o meu bébé". Eram 18:35h.

 

Levaram-no para o tratar e para aqueles testes do índice de apgar, sob promessa de o trazerem de seguida. Vi de longe sem grande noção do que se estava a passar. Limparam-no, aspiraram, a neonatologista F (uma querida) lá testou o que havia a testar e o palco principal deixou de ser a minha cama.

O médico e eu permanecemos espectadores enquanto a equipa trabalhava em redor do meu bébé como uma colónia de abelhas sincronizadas. E nós, aguardávamos a expulsão da placenta.

Trouxeram-me o Eduardo para confirmar a pulseirinha, o elo formal de ligação entre nós os dois. Dizia "R.N. de Susana blá, blá, blá". Mal lhe toquei e tiveram de o levar para o recobro, para a protecção de uma incubadora. Fiquei assustada e tranquilizaram-me sob a justificação de que necessitava de aquecer um bocadinho pois tinha a temperatura nos 34,5º.

 

Começou então a outra parte fisica dolorosa: espremeram-me a barriga o que doeu imenso e hoje, quase uma semana decorrida, ainda sinto dor nos locais calcados pelas enfermeiras. Mas saíu tudo e o médico mostrou-me e explicou como é que a placenta abrigou o meu menino.

Não achei bonita mas o cordão, esse sim, realmente espiralado e muito, muito bonito.

 

Perguntei se o F já tinha visto o filho, disseram-me que sim, aliás... estavam juntos na sala de recobro.

 

Durante a sutura, a sensação de solidão foi imensa. Estava sozinha, sem o meu bébé, sem o meu marido, numa sala que de animada na emergência dos acontecimentos passou a palco solitário de duas pessoas, uma agulha e uma linha. E depois disso limitou-se a mim. Só.

 

Veio então a minha cama, feita de lavado e lá fizémos o transfer. Foi triste sair da sala sem o meu bébé mas enfim, estacionaram-me perto da incubadora dele, onde só o via de costas e não o ouvia chorar: só gemia.

 

Esta foi a maior dor de alma até hoje e eu, que sou uma Madalena, não tive uma lágrima para verter.

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Domingo, 1 de Março de 2009

Para memória futura (escrito em suaves prestações)

Porque por vezes o nosso organismo trai-nos de um modo inesperado, e antes que o Tempo tenha tempo de fazer das suas, gostava de deixar escrita a história do nascimento do meu filho (segundo a minha vivência e interpretação).

 

O dia antes de.

Era Domingo. Véspera do dia marcado para a indução do parto. Combinámos almoçar com os avós paternos e jantar com os maternos. Pelo meio, e porque se proporcionou, fomos tomar um café com a Gisela e o seu pequeno João. Mas algo estranho estava já a acontecer: o meu bébé, sempre tão activo, estava demasiado sossegado.

Aterrorizada por histórias menos felizes, procedi a todas as mezinhas para o estimular: posições que ele gosta, docinhos, festinhas (algumas mais agrestes) e nada.

Fiquei indecisa sobre o passo a tomar, afinal estava a poucas horas da indução e como assim muito raramente e muito levemente o sentia, sabia que ele ainda estava ali. O F. não esteve com meias medidas "vamos ao hospital e pronto". Questionei-me se deveria ligar ao médico, mas parecia-me idiota porque à distância não havia muito a fazer. Ok. O que havia a ser feito, teria de ser no hospital. Mandei-lhe apenas uma mensagem e lá saímos de casa dos meus pais. Uma rápida passagem por casa para ir buscar os exames da grávida,um telefonema do médico para perceber o que se estava a passar e 10 minutos depois estávamos a estacionar na urgêcia. Foi assim que começou.

 

Acto II

Começámos por um ctg que detecta movimentos fetais e ali também eu senti alguns, mas fraquinhos... fraquinhos... Contracções, nem vê-las, quanto mais senti-las.

Chegam dois médicos que olham para a máquina e me asseguram que está tudo bem. Passamos ao gabinete e o médico, no decurso de uma ecografia que corria bem, recebe uma chamada do meu médico e responde que está tudo ok, existem movimentos, a indução está para o dia seguinte, tudo parece bem encaminhado. Vai para casa e volta amanhã.

De repente, nem percebi bem quando, vejo-os aos dois (médico e médica) a falarem de coisas que não percebi, a repetirem medidas, ou contagens ou lá o que era, com uns sorrisos que não interpretei como positivos e quando perguntei se estava tudo bem disseram-me um "sim" meio apagado, que apenas estavam a confirmar umas coisas e o médico lá me explicou que não viam muito líquido nem movimentos respiratórios, perguntou-me se tinha notado perda (a resposta foi negativa) e pegou no telemóvel "vou ligar ao chefe para avisar". No entretanto a médica faz-me um toque e disse que estava extremamente favorável naquele momento portanto tudo indicava que no dia seguinte seria o Dia.

Não sei lá porquê, chamam uma enfermeira e pedem-lhe para tratar do internamento. Dizem-me então "olhe, vamos interná-la para repousar".

Fugiu-me o chão debaixo dos pés.

 

Quarto 513

Um número simpático este, para quem, como eu, está sempre atento a simbologias.

Tudo me pareceu estranho. Enfiada numa camisa de dormir do hospital, com uns chinelos descartáveis nos pés e num quarto despido de quaisquer objectos pessoais, senti-me nua.

Há uns tempos que o F carregava a mala no carro, não fosse o diabo tecê-las. E aparentemente, o dito resolveu meter-se connosco nesse dia.

Por estes dias, a única coisa que me apaziguava o espírito era um livro de sudoku, os blogues e umas séries de televisão. Não sei ao certo quantos puzzles resolvi naquele quarto, mas ainda foram alguns...

Consegui dormir hora e meia. Por volta das sete horas do dia 23 começa o carrossel: dois microlax, abocat no antebraço, promessa de um pequeno almoço se o médico autorizar.

Às oito quase em ponto (a hora que havíamos marcado), entra-me pelo quarto o Johny com o seu habitual sorriso, nesse instante ainda mais rasgado (ou assim me pareceu, talvez pelo meu estado emocional estar alterado).

Avaliou a situação e avisou-me de que teria de permanecer sem mobilidade nas duas horas seguintes, que aproveitasse então para ir ao wc. Não foi preciso.

Após um toque, iniciou-se o processo que consiste em introduzir um gel (prostaglandinas) que, ao que percebi,terá a mesma função da ocitocina, ou seja, actuar "sobre a fibra contráctil do útero provocando a contracção, sincronização e propagação das contracções uterinas".

A primeira hora decorreu calmamente mas na segunda começou o festival: precisava MESMO de ir à casa de banho. Eu tinha achado que os microlax não tinham funcionado em plenitude, mas tanto o F como a enfermeira L me garantiram que era mesmo assim. Só que por esta altura já tinha percebido que não. Pedi ao F que a chamasse para ver se já dava para ir porque ela queria ver o evoluir da situação. Pediu autorização e fez um toque, em 15 minutos (quando fazia as duas horas) poderia ir, só tinha de colocar o soro numa "antena" portátil.

Decorreram os 15 minutos e chamo a auxiliar para que me facultasse a "antena" ao que se seguiu uma das discussões mais surreais que ali tive:

-Não pode ir à casa de banho, mãe! Está ligada ao ctg!

-Pois, mas a enfermeira L autorizou que fosse a esta hora.

-Sim... mas não pode levar o ctg atrás para a casa de banho! Só se trouxermos uma arrastadeira...

-Não quero arrastadeira nenhuma, quero ir à casa de banho e pronto! O ctg não tem fios precisamente para poder ter mobilidade!

-Mas tem aí os elásticos, não vê? Não pode ir à casa de banho com o ctg!

-OK! Chame a enfermeira se faz favor!

(sai e volta meio minuto depois)

-Vai ter de esperar que a enfermeira está ocupada. Só se quiser a arrastadeira...

(Segue-se nova discussão sobre a portabilidade do ctg ao que eu disse que esperava pela enfermeira).

O F. às tantas passa-se e vai mesmo prcurar a enfermeira, que vem ao quarto e me diz que posso ir à vontade e deve ter ido mexer uns cordelinhos porque depois de dizer "isto é muita burrice!!!" a tal "antena" lá apareceu...

Foi o alívio!

 

Abençoada Epidural

O Dr C, anestesista, foi ao quarto apresentar-se, fazer-me algumas perguntas e dizer que quando eu quisesse, poderia solicitar a analgesia. Disse-me que talvez fosse boa ideia introduzir o cateter em breve para facilitar o processo, pois quando as dores fossem maiores (nesta altura ainda quase não as sentia) tudo se complicaria e seria pior para mim e para ele. Concordei e ele mandou preparar o material.

Entretanto chega a enfermeira G. com um kit que nem percebi bem o que era tal a surdina da sua voz. Era para fazer a remoção dos pêlos púbicos ao que lhe disse que perguntara ao médico e este me aconselhou a não tirar nada. E ela não insistiu (foi esta a primeira prova dada do enorme respeito que aquelas pessoas manifestaram pelo meu corpo).

O Dr C volta com a enfermeira L e coloca-me em posição: sentada, sossegadinha, prontinha.

Demorou mas não custou na-di-nha e ali fiquei, ainda sem analgesia, mas com tudo prontinho para quando fosse preciso.

Só que surgiu um problema: com o cateter fiquei imobilizada, logo decidiram colocar-me uma algália. E aqui começou a minha tortura: de tudo o que se passou no dia 23, fisicamente, foi o momento que mais me custou. A enfermeira dizia que era apenas uma algália, que não era possível que estivesse a doer... mas estava! A borracha a passar à força, o ardor, a sensação horrível de ter ali um objecto estranho. Bom, descontrolei-me completamente e foi o descalabro: o meu parco pequeno-almoço multiplicou-se para dimensões exageradas e veio todo para fora sem dar tempo de nada. Foi a segunda vez que vomitei na gravidez.

Por esta altura entrei em transe e o meu cérebro desligou parcialmente. De tal modo que deixei de dar atenção ao que se passava em redor. O Johny entra e faz uma piada sobre a algália e como devo ter feito uma cara estranha, justificou-se, como se fosse necessário. Não. Eu é que não estava ali.

Começaram as dores e o F chamou o Dr. C para trazer a abençoada dose que me aliviou quase de imediato. Aqui é necessária alguma dose de cooperação e interpretação de sinais para perceber se está a funcionar: as contracções tornam-se mais frequentes mas mais rápidas e o médico disse que o melhor a fazer é não inspirar muito profundamente porque o excesso de oxigénio ainda nos deixa mais zonzas.

A partir daqui recordo-me de pouco: umas visitas do Johny para ver a evolução, uma segunda dose de analgésico,uma comichão incontrolável  que me fez estraçalhar um sinalito de carne aqui debaixo da mama, algumas contracções, uma ou outra dor aguda na zona dos rins (tenho uma vaga ideia de alguém me dizer que a epidural não é muito eficaz nas dores dos rins) e pronto. Foi assim que chegou a terceira dose da epidural e com ela a quase hora H.

 

sinto-me: a recordar
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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Sobre o "Orgasmic Birth"

A Ana deixou-me o link para ler e reflectir. Parece que ela acha que ando "a reflectir demais" sobre o parto e provavelmente tem razão pois, mesmo sendo um cliché, o que for, será.

 

Li, pensei e não posso concordar.

 

Não me parece insultuosa a insinuação de que um parto possa ter uma dimensão de prazer. Certamente que a tem. O que julgo é que atribuir uma conotação sexual a esse prazer não é algo que se possa generalizar ao ponto de presumir que qualquer mulher pode sentir esse mesmo prazer físico, tão semelhante ao prazer sexual, chegando mesmo ao ponto de ter um orgasmo.

Pela parte que me toca, na presença de dor física, não há nada que me proporcione mais prazer a não ser o alívio dessa mesma dor. E parece-me que esta opinião é partilhada pelos milhões de mulheres que recorrem à analgesia para aliviar as dores pela simples perspectiva de parir sem dor e não por considerarem que o efeito de medo das dores e sofrimento no momento do parto surgiu porque a nossa cultura associa o nascimento a um momento puro e a sexualidade a algo impuro. Não, a dor (e com ela o sofrimento) é real, seja na presença de pessoas estranhas (médicos, parteiros, enfermeiros), seja apenas na presença do pai do nosso filho, o homem com quem, afinal, o concebemos debaixo de intenso prazer sexual.

 

Por vezes este tipo de perspectivas assustam-me, pelas consequências que podem ter se o quadro não for favorável. Isto de parir assim e assado, à luz das velas, com massagens aqui e acolá (e perdoem-me as seguidoras desta "filosofia do parto") é muito giro quando tudo corre bem. Mas e quando as coisas não são tão lineares? Quando o nosso bébé (ou mesmo nós) precisamos de ajuda? Quando corremos verdadeiro risco de vida? (como me dizia uma enfermeira, por alguma razão a taxa de mortalidade materno-infantil desceu drasticamente nos últimos 50 anos).

 

Eu dou graças a Deus por ter o apoio e conhecimento da equipa que tenho e mesmo trocando o conforto da minha cama, a intimidade do meu lar e o descanso do ambiente a que estou habituada pelo quarto do hospital, a presença de algumas pessoas que nunca vi (mas em quem confio) e sobretudo do homem que me acompanhou nestes 9 meses e que sei que dentro das suas limitações e conhecimento, tudo fará para o meu bem-estar e do meu filho (o médico, a quem agradeço tudo) sei que o meu momento de prazer vai chegar. Não será certamente antes nem a parir mas quando O vir, O sentir, O tiver nas minhas mãos, quando partilhar AQUELE olhar com o meu marido e em que tudo se resume a "amor em estado sólido".

 

Esta é a minha visão do parto. Sei que, se tudo correr bem (e não falo de perfeição), vai ser o dia mais feliz da minha vida. Não pelo prazer que se possa sentir mas por conhecer aquele que é o maior amor na vida de uma mulher.

 

Quem não estiver de acordo... só posso dizer que respeito e que é por isso que o mundo não tomba ;)

sinto-me: opinante
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Fim-de-semana: medoooo, muito medoooo

Cada vez que chega uma sexta-feira eu penso: que não seja no fim-de-semana, que não seja no fim-de-semana...

 

E não imaginam a quantidade de "pedidos" para que ele nascesse este Sábado ou Domingo!

 

Shiuuuuu! Filho, não oiças o que eles dizem. Eles são tótós! Não queremos, pois não? Queremos a calmaria dos dias de semana e o nosso médico!

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